Captura de peixes recifais desembarcada na praia. Foto: Ronaldo Francini-Filho.

Figura 1. Captura de peixes recifais desembarcada na praia. Foto: Ronaldo Francini-Filho.

Com quase 8 mil km de litoral e mais de um quarto da população vivendo na costa, e uma das biodiversidades mais ricas do planeta, seria de se esperar que o peixe tivesse um papel central no prato dos brasileiros. Um novo estudo liderado por pesquisadores do Integramar mostra que não é bem assim: o consumo médio de frutos do mar no país é de apenas 5,3 kg por pessoa ao ano (bem abaixo dos cerca de 12 kg recomendados pela FAO) enquanto deficiências nutricionais como cálcio e vitamina A seguem generalizadas entre a população.

O trabalho, parte do projeto de mestrado da pesquisadora Maria Luiza Gallina (Programa de Pós-Graduação em Biodiversidade Animal, Universidade Federal de Santa Maria), atual doutoranda na Universidade Federal do Ceará, foi desenvolvido pelo grupo de síntese ReefSYN (Centro SinBiose, do CNPq), reunindo pesquisadores de todo o país. Esta é a primeira avaliação de abrangência nacional a cruzar dados de consumo alimentar domiciliar (mais de 30 mil famílias), composição nutricional dos alimentos e estatísticas de desembarque pesqueiro para entender o real potencial do peixe na segurança alimentar brasileira.

Pouco peixe, muita desigualdade.

Os dados, provenientes da Pesquisa de Orçamentos Familiares do IBGE, revelam diferenças marcantes entre regiões e classes de renda. O consumo de pescados é maior no Norte do país e entre as classes de maior renda no Sul e Sudeste; já a carne bovina e a de aves dominam a dieta na maior parte do território, com o peixe de água doce ganhando mais espaço na Amazônia e a carne suína se destacando no Sul.

Figura 2. Contribuição de diferentes fontes de proteína animal na dieta diária dos brasileiros, por classe de renda (A–E) e região. A barra azul no canto superior direito mostra como os “alimentos azuis” se dividem entre cefalópodes, crustáceos, peixes de água doce, peixes importados, moluscos e peixes de água salgada. O gradiente de azul sobre o mapa mostra o consumo médio anual per capita de pescado marinho em cada estado, quanto mais escuro, maior o consumo. Estados como Pará e Maranhão apresentam os maiores valores; Rio Grande do Sul e Paraná, os menores.

Um pouco mais de peixe já faz uma grande diferença

Ao simular diferentes cenários de dieta, a equipe descobriu que aumentar a participação do peixe de cerca de 6% para 25% na proteína animal consumida na dieta seria suficiente para reduzir substancialmente as deficiências de cálcio, ferro, zinco e vitamina A na população. Isso porque o peixe costuma render mais nutrientes por porção do que carnes terrestres: espécies muito desembarcadas no Brasil, como a tainha, a sardinha-verdadeira e o caranguejo-uçá, se destacaram como particularmente ricas em cálcio, zinco e ômega-3.

Nem todo estado tem peixe suficiente para todo mundo.

A boa notícia nutricional, porém, esbarra numa má notícia pesqueira: quando os pesquisadores compararam a quantidade de nutrientes desembarcada pela pesca com a que seria necessária para suprir a demanda da população, apenas quatro dos 17 estados costeiros avaliados (Amapá, Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul e Santa Catarina) desembarcam nutrientes suficientes para atender sua própria demanda. Na maioria dos estados, a pesca sozinha não daria conta de alimentar toda a população com os níveis recomendados, o que reforça que simplesmente pescar mais não é uma solução viável nem sustentável.

O que isso significa na prática?

Para as autoras e autores, os resultados apontam para um caminho mais estratégico do que apenas aumentar o volume pescado: fortalecer a governança pesqueira, valorizar espécies de alta densidade nutricional, investir em produção sustentável e diversificada, e reconhecer o papel de comunidades tradicionais — quilombolas, indígenas e artesanais — que já dependem do peixe como fonte primária de proteína e não podem ficar de fora de políticas públicas de nutrição e de gestão pesqueira.

Referência: Gallina, M. L. X., Cordeiro, C. A. M. M., Eggertsen, L., Ferreira, C. E. L., Francini-Filho, R. B., Freire, K. M. F., Giglio, V. J., Hanazaki, N., Longo, G. O., Mendes, T., Quimbayo, J. P., Vila-Nova, D. A., Waechter, L. S., Luza, A. & Bender, M. G. (2026). Seafood consumption could help fill nutrition gaps in Brazil. Nature Food. https://www.nature.com/articles/s43016-026-01402-4