Estudo pioneiro analisou 191 artigos sobre áreas marinhas protegidas brasileiras e identificou avanços, lacunas e caminhos para as próximas pesquisas.
Uma pesquisa pioneira, desenvolvida no âmbito do IntegraMar, analisou a produção científica sobre biodiversidade em áreas marinhas protegidas brasileiras. A equipe reuniu 191 artigos e verificou onde as pesquisas foram realizadas, quais grupos de organismos receberam atenção, quais métodos foram utilizados e quais dimensões da biodiversidade foram consideradas.
O levantamento constatou uma produção crescente, porém distribuída de forma desigual. Peixes e algumas regiões concentraram os estudos. Outras partes da biodiversidade, como as relações evolutivas entre os organismos, quase não foram abordadas na literatura. Ao examinar essas diferenças, os pesquisadores identificaram lacunas que podem orientar novos trabalhos e ampliar a contribuição da ciência para a conservação marinha.
O que são áreas marinhas protegidas (AMPs)?
As AMPs são espaços destinados à conservação da biodiversidade e dos processos ecológicos. Elas podem oferecer refúgio a espécies ameaçadas e contribuir para manter as funções importantes dos ecossistemas costeiros e marinhos. Seu planejamento e sua avaliação dependem de informações sobre a biodiversidade que abrigam. As regras de uso variam entre essas áreas. As AMPs de proteção integral proíbem atividades extrativas, enquanto as de uso sustentável permitem determinados usos extrativos. Entre os locais representados na revisão, o Parque Nacional Marinho dos Abrolhos pertence ao primeiro grupo; a Área de Proteção Ambiental Costa dos Corais, ao segundo.
Essa diferença também fez parte da análise. Os autores compararam a distribuição das publicações entre os dois grupos para verificar se o conhecimento disponível estava concentrado em áreas com determinado nível de proteção.
Como a revisão foi feita?
A equipe consultou bases indexadoras de literatura científica buscando estudos sobre biodiversidade em AMPs brasileiras. Foram encontrados 191 artigos que realizaram pesquisas em 57 AMPs: 22 de proteção integral e 35 de uso sustentável. A organização dessas informações permitiu comparar a produção ao longo do tempo, sua distribuição geográfica e as abordagens adotadas pelos pesquisadores.
Ficaram de fora, por exemplo, trabalhos centrados em uma única ou poucas espécies, estudos que não identificavam explicitamente as AMPs e pesquisas anteriores à criação dessas áreas. Por isso, um local ausente do levantamento não deve ser interpretado como um lugar nunca pesquisado.
Mais publicações, com atenção concentrada em alguns grupos e lugares

Número de artigos por grupo de organismos na revisão. Um mesmo artigo pode incluir mais de um grupo. Fonte: Giglio et al. (2026), Figura 1A.
Na literatura analisada, a média passou de um artigo por ano nos anos 1990 para 14 por ano nos anos 2020. Os peixes apareceram em 58% dos artigos. Macroalgas e corais vieram em seguida, presentes em 30% cada. Um mesmo trabalho pode investigar mais de um grupo, portanto esses percentuais não representam parcelas exclusivas do total. Ainda assim, as publicações dedicadas a um único grupo taxonômico foram mais frequentes do que as que reuniram vários grupos.
Mamíferos, aves marinhas e répteis tiveram pouca participação na seleção. Os autores explicam que muitas pesquisas sobre esses animais se concentram em espécies específicas ou abrangem áreas geográficas mais amplas, sem tratar as AMPs como unidades de análise. Isso ajuda a entender sua baixa representação no levantamento, sem indicar ausência de pesquisa sobre esses organismos.
A distribuição geográfica revelou outro desequilíbrio. As ecorregiões marinhas do Sudeste, Leste e Nordeste concentraram a maior proporção das publicações. Essas divisões agrupam ambientes com semelhanças na composição de espécies, nas condições ambientais e na dinâmica ecológica; não equivalem às regiões administrativas brasileiras. Amazônia e Rio Grande estiveram entre as ecorregiões menos contempladas na literatura analisada.
As áreas de proteção integral concentraram 63% dos artigos, apesar de serem menos numerosas entre as 57 representadas. Na discussão, os pesquisadores associam parte dessa concentração à história dessas áreas e às condições disponíveis para a realização de pesquisas, como infraestrutura e apoio logístico. Os autores defendem maior atenção às áreas de uso sustentável. Nelas, a presença de atividades como pesca, turismo e ocupação costeira torna importante compreender os usos da biodiversidade, seus impactos e as respostas dos ecossistemas às pressões humanas.
Biodiversidade: conhecer as espécies é uma parte da história
Saber quais espécies vivem em um recife é fundamental para descrever sua comunidade. Essa informação, porém, não revela necessariamente as diferenças entre os organismos e suas contribuições para o funcionamento do ecossistema. Foi por isso que a revisão também examinou as dimensões da biodiversidade consideradas em cada publicação. A diversidade taxonômica está relacionada à variedade e à composição de espécies. Pesquisas com essa perspectiva ajudam a identificar os organismos presentes e a descrever como as comunidades se formam. Foi a dimensão mais investigada na literatura selecionada.
A diversidade funcional considera a variedade de características dos organismos relacionadas ao funcionamento dos ecossistemas. Aspectos da forma e da alimentação, por exemplo, permitem examinar diferenças ecológicas entre as espécies que uma lista de nomes não expressa por si só. Já a diversidade filogenética considera as relações de parentesco evolutivo entre os organismos. Essa perspectiva ajuda a compreender como diferentes histórias evolutivas são representadas em uma comunidade e pode complementar as informações sobre a diversidade funcional.
Na maioria dos trabalhos selecionados, apenas uma dimensão foi investigada. A diversidade filogenética foi quase ausente, e nenhum artigo reuniu simultaneamente as três perspectivas. A integração limitada entre essas abordagens é uma das lacunas centrais identificadas pela revisão. Isso não torna os inventários de espécies menos importantes. Os autores defendem sua continuidade, sobretudo em grupos e áreas pouco conhecidos: esses registros fornecem os dados básicos necessários para calcular outras medidas de diversidade. A proposta é ampliar as possibilidades de análise a partir dessa base.
Como os dados sobre biodiversidade são coletados?

Distribuição proporcional dos métodos de amostragem ao longo dos anos nos artigos analisados. Fonte: Giglio et al. (2026), Figura 6B.
A revisão também distinguiu os trabalhos que produziram novas informações daqueles que utilizaram conjuntos de dados já existentes. Em 93% dos artigos, houve produção de novos dados sobre biodiversidade. Levantamentos com mergulhadores e observação visual, registros por imagens e vídeos e amostragens de habitats e organismos do fundo estiveram entre as principais abordagens. O uso de imagens e vídeos remotos cresceu ao longo do período analisado. Os autores destacam técnicas como registros fotográficos, filmagens ao longo de percursos de amostragem, câmeras submarinas remotas e veículos operados remotamente. Esses recursos ampliam as possibilidades de investigar ambientes mais profundos e de difícil acesso.
Assim, a revisão registra avanços tanto no volume de publicações quanto na variedade de métodos disponíveis para observar a vida marinha. Ao mesmo tempo, mostra que essa expansão ainda convive com uma cobertura desigual de organismos, regiões e dimensões da biodiversidade.
O que as lacunas indicam para as próximas pesquisas?
As recomendações do estudo foram fortalecer inventários em grupos e áreas pouco conhecidos, melhorar a compreensão da distribuição espacial da biodiversidade e ampliar as pesquisas sobre diversidade funcional e sua relação com os serviços ecossistêmicos, os benefícios que os ecossistemas proporcionam às pessoas.
Os autores também defendem bases de dados abertas, programas de monitoramento ecológico de longo prazo e colaboração entre instituições. Essas iniciativas podem facilitar o desenvolvimento de pesquisas que integrem diferentes dimensões da biodiversidade. Há ainda uma dificuldade ligada ao uso das informações. Os resultados científicos nem sempre chegam aos gestores em um formato útil para suas decisões. Eles propõem maior aproximação entre pesquisadores, instituições, gestores e comunidades locais, para conectar as perguntas da ciência às necessidades das áreas protegidas.
A contribuição do IntegraMar está em distinguir essas necessidades a partir de uma análise conjunta da literatura. O trabalho não mediu a eficácia de cada AMP: identificou a cobertura e os limites das pesquisas selecionadas. Com esse diagnóstico, torna-se possível direcionar novos estudos para organismos, ambientes e aspectos da biodiversidade que receberam pouca atenção, preservando a importância dos inventários básicos e ampliando as abordagens complementares.
O artigo Trends in biodiversity research in Brazilian marine protected areas — “Tendências da pesquisa sobre biodiversidade em áreas marinhas protegidas brasileiras” — foi publicado em 2026 na revista Marine Environmental Research. É assinado por Vinicius J. Giglio, Carine O. Fogliarini, Mariana G. Bender e Carlos E. L. Ferreira, vinculados à Universidade Federal do Oeste do Pará, à Universidade Federal de Santa Maria e à Universidade Federal Fluminense. A pesquisa foi realizada no âmbito do IntegraMar, com financiamento do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), como parte de iniciativas do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI).