Novo capítulo do maior diagnóstico já produzido sobre os recifes do planeta mostra perdas recentes no Brasil, registra a capacidade de recuperação desses ecossistemas e reforça por que o monitoramento de longo prazo precisa ser tratado como prioridade.

Os recifes brasileiros acabam de ganhar um capítulo próprio no retrato mais amplo já produzido sobre o estado dos recifes de coral do planeta. Publicado pela Rede Global de Monitoramento de Recifes de Coral (GCRMN), o relatório Status of Coral Reefs of the World: 2025 reúne 21,1 milhões de observações, obtidas em 36.886 locais de recifes distribuídos por 124 países e territórios.
Ao divulgar os resultados, o Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente resumiu o alerta em uma frase direta: ‘O futuro dos recifes de coral é preocupante’. Em escala global, a cobertura de corais duros caiu de uma média histórica de 30,2%, calculada para 1980 a 2009, para 27,3% no período de 2020 a 2024, uma redução relativa de 9,5%. A sucessão de ondas de calor marinhas deixa o que permanece exposto a eventos cada vez mais frequentes e severos.
Entre os autores do capítulo dedicado ao Brasil estão Guilherme Longo, Cesar Cordeiro, Kelly Inagaki e Miguel Mies, integrantes da Rede IntegraMAR. Eles integram um grupo de 12 autores e uma rede ainda mais ampla de pessoas que contribuíram com dados coletados ao longo de décadas. Esse esforço coloca os recifes brasileiros em uma análise global e permite comparar sua trajetória com a de outras regiões do mundo.
Colocar o Brasil nesse mapa é importante. Nossos recifes ocupam cerca de 1.178 km² e formam uma região biogeográfica singular, com alto endemismo e espécies que não ocorrem em outros oceanos. Sem dados brasileiros, parte relevante da história dos recifes do Atlântico Sul permaneceria ausente dos diagnósticos que orientam prioridades de pesquisa, conservação e financiamento.
O que os dados brasileiros mostram

O capítulo não apresenta apenas uma fotografia do presente. As tendências foram estimadas a partir de quatro conjuntos de dados, que somam 488 levantamentos realizados em 77 locais entre 2002 e 2025. É isso que o monitoramento torna possível: distinguir uma oscilação passageira de uma mudança persistente e reconhecer tanto perdas quanto sinais de recuperação.
Os dados mostram que a temperatura da superfície do mar sobre os recifes brasileiros aumentou 0,76 °C entre 1985 e 2025, uma taxa média de 0,19 °C por década. Nesse período, os recifes foram atingidos por sucessivos episódios de estresse térmico, incluindo os eventos de branqueamento de 1998, 2010, 2016 e 2024 e o forte evento regional de 2019 e 2020.
A trajetória da cobertura de corais duros ajuda a dimensionar as consequências. Entre 2002 e 2016, a cobertura estimada para a região aumentou de 15,9% para 26,6%, uma recuperação relativa de 66,9%. Depois, com a repetição e a intensificação das anomalias térmicas, ocorreu uma inversão: entre 2016 e 2024, a cobertura caiu de 26,6% para 17,6%, uma redução relativa de 33,8%.
A situação foi ainda mais grave no Nordeste. Entre 2019 e 2024, a cobertura de corais duros caiu de 14,3% para 4,8%, uma redução relativa de 66,2%. Os recifes de Fernando de Noronha e do Atol das Rocas também perderam cobertura após eventos térmicos sucessivos. No leste do Brasil, que inclui Abrolhos, o declínio recente foi menor, mas houve mudanças na composição das comunidades, com a mortalidade de formas ramificadas e maciças e o aumento de espécies oportunistas de crescimento rápido.
Durante algum tempo, a resistência observada após episódios anteriores de branqueamento alimentou a ideia de que os recifes brasileiros poderiam funcionar como um refúgio diante das mudanças climáticas. Os eventos de 2019, 2020 e 2024 mostraram que eles não são imunes. A repetição das ondas de calor reduz o intervalo disponível para a recuperação e pode transformar perdas episódicas em uma trajetória prolongada de declínio.
Há razões concretas para manter a esperança

Crédito: Natalia Roos
O diagnóstico é preocupante, mas não aponta para um futuro inevitável. O próprio relatório global registrou um aumento relativo de aproximadamente 6% na cobertura de corais duros entre 2017 e 2019, depois do terceiro evento global de branqueamento. No Brasil, a recuperação observada entre 2002 e 2016 coincidiu com um período de menor estresse térmico e com a consolidação de áreas marinhas protegidas e outras medidas de gestão.
Esses resultados mostram que os recifes ainda podem responder quando encontram condições favoráveis e tempo suficiente entre as perturbações. A esperança, portanto, não significa minimizar as perdas. Significa reconhecer que decisões tomadas agora ainda podem alterar a trajetória desses ecossistemas.
Isso exige ação em duas escalas ao mesmo tempo. No plano global, reduzir rapidamente as emissões de gases de efeito estufa é indispensável para limitar o aquecimento do oceano e a frequência das ondas de calor marinhas. No plano local, áreas marinhas protegidas efetivas, melhoria da qualidade da água, ordenamento da ocupação costeira, pesca sustentável e controle de espécies invasoras ajudam a preservar processos ecológicos essenciais para a resistência e a recuperação dos recifes.
Monitorar a biodiversidade é parte da solução

O capítulo brasileiro também evidencia o valor de políticas científicas capazes de sustentar observações por muitos anos. Sem séries temporais, perdas graduais podem passar despercebidas, recuperações podem ser interpretadas de forma equivocada e decisões de manejo ficam baseadas em retratos incompletos.
É nesse ponto que programas nacionais de monitoramento da biodiversidade se tornam estratégicos. O Programa de Pesquisa em Biodiversidade (PPBio), do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação, promove pesquisa em rede e busca ampliar o conhecimento sobre a biodiversidade brasileira. O IntegraMAR é uma das redes apoiadas pelo programa e conecta pesquisadores, instituições e regiões para produzir informações sobre biodiversidade, impactos, serviços ecossistêmicos, gestão e conservação marinha.
O Programa de Pesquisas Ecológicas de Longa Duração (PELD), coordenado pelo CNPq desde 1999, cumpre uma função complementar ao manter sítios de referência e séries temporais sobre os ecossistemas brasileiros. Entre os parceiros do IntegraMAR, o PELD Ilhas Oceânicas Brasileiras (PELD-ILOC), que reúne vários integrantes da rede, monitora desde 2013 a vida marinha no Arquipélago de São Pedro e São Paulo, no Atol das Rocas, em Fernando de Noronha e em Trindade e Martin Vaz.
A continuidade desses programas é tão importante quanto sua expansão. O capítulo ainda revela lacunas geográficas e diferenças no esforço de amostragem. Os recifes amazônicos, por exemplo, não puderam ser incluídos nas análises de tendência por falta de dados de longo prazo. Cada série interrompida ou região sem acompanhamento reduz nossa capacidade de reconhecer mudanças, avaliar políticas e agir antes que uma perda se torne irreversível.
Conhecer para agir
Colocar o Brasil no mapa global dos recifes não é apenas uma conquista de visibilidade. Significa garantir que a singularidade de nossos ecossistemas, as perdas já observadas e sua capacidade de recuperação façam parte das avaliações internacionais e das decisões tomadas no país.
A principal mensagem do capítulo é dupla. Perdemos uma parcela expressiva da cobertura de corais nos últimos anos, e novas ondas de calor podem reduzir ainda mais o tempo disponível para a recuperação. Ao mesmo tempo, os dados mostram que os recifes respondem quando as pressões diminuem e os processos ecológicos são protegidos.
Manter essa possibilidade aberta depende de combinar conservação local, enfrentamento das mudanças climáticas e investimento contínuo em ciência. Monitorar é o que nos permite saber onde as perdas estão acontecendo, quais recifes resistem melhor e quais ações funcionam. É também o que transforma preocupação em capacidade de resposta.
Saiba mais
• Capítulo 2 Brasil do relatório Status of Coral Reefs of the World 2025
• Síntese global do relatório GCRMN 2025
• Programa de Pesquisa em Biodiversidade PPBio