Estudos globais e brasileiros mostram que os limites de uma área protegida não impedem a chegada de esgoto e outros contaminantes. Em parceria com o Programa Monitora, do ICMBio, o IntegraMAR está ampliando esse diagnóstico em seis áreas marinhas protegidas do país.

Quando uma área marinha protegida é criada, uma linha passa a existir no mapa. Dentro dela, atividades podem ser restringidas, espécies e habitats ganham instrumentos de proteção e o poder público assume compromissos de gestão. A água, porém, não reconhece essa linha. Rios, chuvas, drenagens urbanas, aquíferos e correntes continuam transportando para o mar aquilo que acontece em terra.

Essa conexão ajuda a explicar um resultado que chama atenção: um estudo global de modelagem, destacado recentemente pela Mongabay, estimou que 73% das áreas marinhas protegidas do planeta — mais de 12 mil áreas — estão expostas à poluição por nitrogênio proveniente de águas residuárias. Em quatro das seis regiões tropicais analisadas, a carga mediana estimada chegou a ser até dez vezes maior dentro das áreas protegidas do que nas águas não protegidas ao redor.

O dado não significa que as áreas marinhas protegidas falharam ou deixaram de ser necessárias. Ele mostra que sua efetividade pode ser comprometida quando o planejamento marinho não considera o que ocorre nas cidades, bacias hidrográficas e zonas costeiras adjacentes. Proteger o mar exige integrar gestão da biodiversidade, saneamento, ordenamento territorial e qualidade da água.

A água não reconhece limites no mapa

O excesso de nutrientes, como nitrogênio e fósforo, pode favorecer a proliferação de algas oportunistas, alterar as comunidades que vivem nos recifes, reduzir a qualidade da água e dificultar a recuperação de corais, pradarias marinhas e outros habitats. O esgoto também transporta microrganismos, matéria orgânica e diferentes contaminantes, com riscos para a biodiversidade e para a saúde humana.

Na reportagem da Mongabay, o pesquisador Guilherme Longo, que co-coordena o IntegraMAR, chama atenção para um ponto central: iniciativas de conservação e restauração dependem de condições ambientais que sustentem a recuperação. Plantar corais, restaurar manguezais ou ampliar áreas protegidas são ações valiosas, mas seus resultados ficam limitados quando a qualidade da água permanece comprometida.

A poluição por esgoto é menos visível do que muitos impactos. Nem sempre há uma tubulação despejando efluentes diretamente no mar. A contaminação pode chegar por infiltração no solo, fossas inadequadas, emissários, drenagens pluviais ou cursos d’água. Por isso, identificá-la exige combinar diferentes amostras e indicadores — e acompanhar o ambiente ao longo do tempo.

O alerta já aparecia em Fernando de Noronha

Em 2025, um estudo publicado na revista Environmental Pollution mostrou como esse problema se manifesta em uma das áreas marinhas protegidas mais conhecidas do Brasil: o arquipélago de Fernando de Noronha. Entre os autores estão os integrantes do IntegraMAR Thayná Mello, Cybelle Longhini, Fabian Sá, Edson Vieira e Guilherme Longo, ao lado de pesquisadores de diferentes instituições.

O trabalho avaliou 13 ambientes recifais de Fernando de Noronha e reuniu análises de nutrientes, metais e metaloides, microplásticos, esteróis fecais e hidrocarbonetos policíclicos aromáticos na água e no sedimento. Isótopos estáveis em macroalgas foram usados para rastrear a origem da matéria orgânica, enquanto as comunidades de peixes e organismos bentônicos também foram caracterizadas.

A poluição foi mais intensa na Área de Proteção Ambiental, onde diferentes usos humanos são permitidos, mas também alcançou trechos do Parque Nacional que conta com proteção integral. Efluentes das estações de tratamento avaliadas não atendiam aos padrões legais, e os recifes da área de uso múltiplo apresentaram enriquecimento por amônia e ortofosfato. A assinatura isotópica registrada nas macroalgas revelou nitrogênio proveniente de esgoto ao longo dessa área.

Nos locais mais enriquecidos por nutrientes, havia maior abundância de algas verdes oportunistas e maior biomassa de algas pardas. Na região do porto, concentrações elevadas de hidrocarbonetos, coprostanol e metais indicaram a combinação de esgoto não tratado com contaminação associada a atividades náuticas. Microplásticos foram encontrados de forma disseminada na água e no sedimento.

Dra. Cybelle Longhini, professora da UFRN e pesquisadora do IntegraMAR, explica:

” Muitas vezes, as pessoas associam a poluição a um ambiente visivelmente alterado, “sujo”, mas seus efeitos podem ser crônicos e refletir-se em mudanças gradativas nos grupos de espécies que compõem o recife. Assim, mesmo um ambiente com águas claras e visivelmente limpas pode estar sujeito à poluição. Nossos resultados mostram isso. Todos os locais que avaliamos são áreas de grande beleza, que recebem visitação turística, mas a realidade não visível é que os organismos que ali vivem estão sofrendo os impactos desse processo que se intensifica com o aumento da urbanização e do fluxo turístico não planejado.”

Fernando de Noronha tornou visível uma contradição importante: até ambientes oceânicos, isolados do continente e formalmente protegidos, podem sofrer com pressões locais. Se o crescimento populacional e turístico não é acompanhado por infraestrutura de saneamento, controle de efluentes e gestão portuária, a proteção estabelecida no mapa perde parte de sua capacidade de conservar os ecossistemas.

Do estudo de caso a um diagnóstico em escala nacional

A partir desse aprendizado, o IntegraMAR está ampliando a investigação para construir um diagnóstico inédito, em escala nacional, da poluição química em áreas marinhas protegidas. As expedições foram realizadas entre janeiro e junho de 2025 e entre janeiro e julho de 2026. Os dados de 2025 já foram processados; as amostras da campanha de 2026 continuam em análise.

O monitoramento abrange seis conjuntos de áreas protegidas, do Nordeste ao Sul do país: Fernando de Noronha, em Pernambuco; a Área de Proteção Ambiental dos Recifes de Corais, no Rio Grande do Norte; a Área de Proteção Ambiental Costa dos Corais, em Maragogi e Tamandaré; o Parque Nacional Marinho dos Abrolhos e a Área de Proteção Ambiental Ponta da Baleia, na Bahia; o Refúgio de Vida Silvestre do Arquipélago de Alcatrazes, em São Paulo; e a Reserva Biológica Marinha do Arvoredo, em Santa Catarina.

Em cada região, foram coletadas amostras de água do mar, sedimento superficial e macroalgas. As análises investigam nutrientes dissolvidos; composição elementar e isótopos estáveis nas algas; esteróis fecais, que ajudam a reconhecer a influência de esgoto; metais; e hidrocarbonetos policíclicos aromáticos, associados, entre outras fontes, à queima e ao uso de combustíveis.

Essas informações são reunidas em uma matriz preliminar de risco com cinco linhas de evidência. Em vez de depender de um único indicador, o diagnóstico combina nutrientes, fontes de esteróis, assinatura isotópica das macroalgas e risco associado a metais e hidrocarbonetos no sedimento. Essa integração torna mais robusta a identificação das pressões e ajuda a diferenciar sinais pontuais de padrões que merecem ação de gestão.

Resultados preliminares indicam onde olhar primeiro

Os resultados de 2025 ainda são preliminares, mas já revelam contrastes claros entre as áreas. O Arquipélago de Alcatrazes apresentou, de modo geral, a melhor condição ambiental entre os locais avaliados. Fernando de Noronha concentrou os sinais mais preocupantes, seguido pela Área de Proteção Ambiental dos Recifes de Corais.

Em Noronha, pontos próximos ao Rio do Boldró apresentaram concentrações de nutrientes muito acima das referências legais, acompanhadas por razões entre esteróis compatíveis com esgoto bruto ou não tratado. No sedimento, cromo e níquel superaram níveis associados à probabilidade de efeitos adversos à biota em um dos pontos. Os novos dados reforçam o quadro descrito no artigo de 2025 e mostram a importância de acompanhar a evolução do problema.

Longhini também chama atenção para os impactos sobre a saúde humana:

“As populações humanas também são diretamente afetadas. Em Fernando de Noronha, o nosso estudo ocorre de forma integrada ao projeto CiguaNoronha, coordenado pela professora Silvia Nascimento da UNIRIO. Em conjunto, tentamos entender se os níveis de poluição e o aquecimento das águas são responsáveis pelo aumento de intoxicação por ciguatera no arquipélago. A ciguatera é uma intoxicação humana grave causada pelo consumo de peixes contaminados por ciguatoxinas, substâncias produzidas por microalgas que, ao serem consumidas, acumulam-se no pescado. O aquecimento dos oceanos, aliado à degradação dos ecossistemas recifais e ao aumento da poluição costeira, está entre os fatores que podem potencializar a proliferação das microalgas produtoras de ciguatoxinas.”

Na Área de Proteção Ambiental dos Recifes de Corais, os nutrientes variaram entre as campanhas, e amostras de Garças e Rio do Fogo também apresentaram assinatura de esgoto bruto ou não tratado. A ausência de uma rede ampla de saneamento, o predomínio de fossas e o aumento sazonal da visitação são fatores que precisam ser considerados na interpretação e nas respostas de gestão.

Sinais de influência humana também apareceram em pontos da Reserva Biológica Marinha do Arvoredo, da Costa dos Corais e de Abrolhos. Em alguns casos, eles estiveram associados a chuvas intensas ou a infraestruturas locais. Ao mesmo tempo, o risco ecotoxicológico associado aos hidrocarbonetos foi baixo em todas as áreas analisadas. Esse conjunto de resultados evita generalizações: nem toda presença de contaminante implica o mesmo risco, e cada área exige diagnóstico e resposta próprios.

A leitura definitiva dependerá da conclusão das análises de 2026, da integração entre os diferentes indicadores e da avaliação dos padrões espaciais e sazonais. Ainda assim, os dados já confirmam uma mensagem prática: o status de proteção, sozinho, não bloqueia a chegada de poluentes.

Monitora e IntegraMAR: observar respostas e pressões

Esse trabalho vem sendo desenvolvido em parceria com o Programa Nacional de Monitoramento da Biodiversidade — Programa Monitora, do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade. Presente em mais de 130 unidades de conservação federais, o programa utiliza procedimentos padronizados para produzir informações comparáveis e apoiar decisões de manejo em escalas local, regional e nacional.

A contribuição do IntegraMAR acrescenta ao monitoramento da biodiversidade dados ambientais e químicos complementares, coletados nas mesmas áreas protegidas. Se os indicadores biológicos mostram o que está mudando nas comunidades e nos habitats, as análises de água, sedimento e macroalgas ajudam a reconhecer pressões que podem estar relacionadas a essas mudanças.

Essa integração é valiosa para a gestão. Ela permite relacionar alterações ecológicas à qualidade da água, identificar fontes prováveis de contaminação, definir locais prioritários para investigação e acompanhar se medidas de saneamento ou controle estão produzindo o efeito esperado. Também fortalece a continuidade das séries de dados, essencial para distinguir eventos ocasionais de tendências persistentes.

Proteger o mar começa em terra

Áreas marinhas protegidas continuam sendo uma ferramenta indispensável. Elas reduzem pressões diretas, conservam habitats, protegem espécies e criam condições para a recuperação dos ecossistemas. Mas sua efetividade depende de uma visão que ultrapasse seus limites geográficos.

Isso inclui ampliar e qualificar o saneamento, fiscalizar a eficiência de estações de tratamento, planejar o crescimento urbano e turístico, controlar fontes de contaminação em portos e embarcações e cuidar da drenagem e das bacias que desembocam no litoral. Em ilhas oceânicas e bases de pesquisa, exige ainda soluções adequadas à capacidade local e acompanhamento permanente dos efluentes.

Há uma razão concreta para agir com esperança: a poluição por esgoto é uma pressão sobre a qual governos, comunidades, empresas e gestores podem intervir diretamente. Melhorias de infraestrutura e fiscalização podem produzir ganhos mensuráveis para a qualidade da água. Ao reduzir pressões locais, também aumentamos a capacidade dos ecossistemas de enfrentar o aquecimento do oceano e outros efeitos das mudanças climáticas.

O monitoramento transforma um problema invisível em evidência e a evidência em possibilidade de ação. Uma área marinha protegida não deveria terminar na linha da costa. Muitas vezes, sua proteção começa na rede de esgoto.

Saiba mais

• Notícia da Mongabay sobre poluição por esgoto em áreas marinhas protegidas

• Estudo global: Wastewater pollution undermines coastal marine protection

• Estudo em Fernando de Noronha: Pollution affects even oceanic marine protected areas in Southwestern Atlantic

• Programa Nacional de Monitoramento da Biodiversidade — Programa Monitora/ICMBio

Nota: os resultados do monitoramento IntegraMAR de 2025 e 2026 apresentados neste texto são preliminares; as análises da campanha de 2026 estão em andamento.