Monitoramento de longo prazo em quatro sistemas insulares do Atlântico Sudoeste mostra que a área recifal e o isolamento influenciam tanto o número de espécies quanto a forma como as comunidades de peixes variam entre diferentes pontos de uma mesma ilha e de um ano para outro.
Uma ilha com mais espécies de peixes não é necessariamente aquela cuja comunidade menos muda ao longo do tempo. Da mesma forma, uma comunidade que permanece parecida de um ano para outro não é essencialmente a mais protegida contra impactos futuros.
Essa relação entre riqueza, mudança e estabilidade está no centro de um estudo publicado no Journal of Fish Biology. O trabalho, assinado por Esteban Jorcin Nogueira, Camille Mellin, Carlos E. L. Ferreira e Hudson Tercio Pinheiro, analisou comunidades de peixes recifais no Atol das Rocas, no Arquipélago de Fernando de Noronha, no Arquipélago de São Pedro e São Paulo e na Ilha da Trindade, os quatro conjuntos de ilhas oceânicas brasileiras.
A pesquisa investigou como três fatores geográficos — área da ilha, isolamento em relação ao recife raso mais próximo e distância até o continente — se relacionam com a riqueza de espécies e a estabilidade das comunidades ao longo do tempo. Para isso, os pesquisadores reuniram dados de monitoramento ecológico obtidos durante mais de uma década nas ilhas.
Os resultados mostram que sistemas com áreas recifais maiores tendem a abrigar mais espécies e comunidades mais diferentes entre seus próprios locais de amostragem. Ao mesmo tempo, as ilhas mais isoladas apresentaram menos mudanças na composição das comunidades entre os anos. Esse conjunto de resultados chama a atenção para dois pontos : maior diferença entre comunidades não significa, necessariamente, maior instabilidade, assim como menor mudança temporal não é sinônimo automático de maior resiliência.
O que o tamanho e o isolamento mudam em uma ilha
O ponto de partida da pesquisa é a Teoria da Biogeografia de Ilhas, proposta por MacArthur e Wilson. De maneira simplificada, ela sugere que o número de espécies de uma ilha depende do equilíbrio entre a chegada de novas espécies e o desaparecimento de populações que já estavam presentes.
O tamanho e o isolamento influenciam esse equilíbrio. Áreas maiores costumam oferecer mais espaço e uma variedade maior de habitats. Também podem sustentar populações mais numerosas, menos sujeitas a desaparecer por eventos pontuais.
O isolamento, por outro lado, dificulta a chegada de novos indivíduos. Quanto maior a distância em relação a outros ambientes adequados, menor tende a ser a possibilidade de colonização ou recolonização. Por isso, ilhas pequenas e isoladas geralmente apresentam menos espécies, embora também possam reunir proporções maiores de espécies endêmicas, encontradas apenas naquela região.
Essas relações já são conhecidas quando se observa a quantidade de espécies. O que ainda é menos compreendido é como elas se manifestam ao longo do tempo: ilhas maiores seriam também mais estáveis? O isolamento tornaria as comunidades mais suscetíveis a oscilações? Ou limitaria as entradas e saídas de espécies, produzindo comunidades mais constantes?
Foi essa dimensão temporal que o novo estudo procurou investigar.
Um monitoramento de longo prazo em quatro sistemas insulares
Os dados foram coletados inicialmente de forma descontínua entre 2006 e 2011. A partir de 2012, o monitoramento passou a ocorrer anualmente nas quatro áreas, como parte do Programa Ecológico de Longa Duração nas Ilhas Oceânicas, o PELD ILOC.
Ao todo, foram realizados 3.634 transectos subaquáticos e registradas 150 espécies de peixes. Em cada levantamento, mergulhadores percorriam uma faixa de 20 metros de comprimento por 2 metros de largura, em ambientes recifais localizados entre 3 e 15 metros de profundidade. Durante o percurso, identificavam as espécies, contavam os indivíduos e estimavam seus tamanhos.
Como o esforço de coleta não foi igual em todas as ilhas e em todos os anos, as comparações foram padronizadas. Os autores adotaram como referência o menor esforço disponível: 23 transectos, equivalentes a 920 metros quadrados de área amostrada. Anos que não atingiram esse mínimo foram retirados de determinadas análises.
Outro ponto importante é o significado de “tamanho”. A pesquisa não considera apenas a porção de terra que aparece acima da água. Uma das principais medidas utilizadas é a área da plataforma insular rasa, relacionada à extensão disponível para os ambientes recifais.
Fernando de Noronha possui uma plataforma de aproximadamente 181,8 quilômetros quadrados. Em Trindade, são cerca de 77 quilômetros quadrados; no Atol das Rocas, pouco mais de 7; e, em São Pedro e São Paulo, apenas 3,5 quilômetros quadrados.

Localização dos quatro sistemas insulares analisados e comparação de suas áreas de plataforma rasa. São Pedro e São Paulo possuem a menor área, enquanto Fernando de Noronha apresenta a maior plataforma entre as áreas estudadas. Fonte: Nogueira et al. (2026), Figura 1.
Áreas recifais maiores abrigaram mais espécies
Quando os pesquisadores analisaram pequenos trechos de recife, a riqueza de espécies foi relativamente parecida entre as ilhas. A principal exceção foi São Pedro e São Paulo, o menor e mais isolado dos sistemas analisados, que apresentou os menores valores.
As diferenças ficaram mais claras quando a comparação passou a considerar o conjunto padronizado de amostras. Nesse recorte, Trindade apresentou uma média próxima de 60 espécies, seguida por Fernando de Noronha, com cerca de 52,5, e Rocas, com aproximadamente 41. São Pedro e São Paulo ficou em torno de 27,7 espécies.

A quantidade de espécies encontrada em pequenos trechos de recife, ou faixas de amostragem chamadas de transectos, foi relativamente semelhante entre as ilhas, com valores menores em São Pedro e São Paulo. Quando o conjunto padronizado de amostras foi considerado, as áreas recifais maiores apresentaram comunidades mais ricas. Fonte: Nogueira et al. (2026), Figura 2.
A relação não depende apenas da quantidade de espaço disponível. Plataformas maiores tendem a reunir uma variedade maior de habitats e microambientes. Isso permite que diferentes espécies ocupem partes distintas de uma mesma ilha.
Por esse motivo, as áreas maiores também apresentaram maior dissimilaridade espacial. Em termos simples, os peixes encontrados em um ponto do recife eram mais diferentes daqueles registrados em outro ponto do mesmo sistema insular.
Nas ilhas menores e mais isoladas, as comunidades foram mais homogêneas. Os diferentes locais de amostragem tendiam a reunir conjuntos mais parecidos de espécies.
Comunidades diferentes não são necessariamente comunidades instáveis
A distinção entre dissimilaridade e variabilidade é fundamental para interpretar os resultados.
A dissimilaridade indica quanto duas comunidades diferem entre si. Pode comparar, por exemplo, dois locais de uma mesma ilha ou uma comunidade registrada em dois anos distintos. Já a variabilidade mostra quanto essa medida oscila em torno de seu padrão.
As ilhas maiores apresentaram maior dissimilaridade média. Isso significa que possuíam comunidades mais diferentes entre locais e, em algumas análises, entre anos. No entanto, os sistemas menores apresentaram os maiores coeficientes de variação em vários indicadores.
Na prática, uma ilha pode reunir comunidades internamente mais diversas e dinâmicas sem que isso represente uma sequência de mudanças abruptas ou imprevisíveis. Os autores interpretam a menor variabilidade observada em determinados indicadores das ilhas maiores como um possível efeito de amortecimento contra alterações na composição.
Por isso, não seria correto resumir os resultados dizendo apenas que ilhas maiores são menos estáveis. Elas apresentaram maior riqueza e mais diferenças internas, mas também sinais de que a extensão e a diversidade de habitats podem ajudar a distribuir ou absorver mudanças temporais.
Área e isolamento também influenciaram as mudanças entre os anos
Nas comparações temporais, as ilhas maiores continuaram apresentando valores mais altos de dissimilaridade do que o menor sistema insular. Os modelos também indicaram uma relação negativa entre isolamento e mudança temporal: quanto maior o isolamento em relação ao recife mais próximo, menor tendia a ser a diferença observada entre as comunidades de anos distintos.
A área recifal apresentou o movimento oposto. Plataformas maiores estiveram associadas a mudanças mais intensas na composição e na abundância dos peixes.
Essas mudanças ocorreram principalmente por substituição de espécies, processo conhecido como turnover. Algumas espécies deixavam de ser registradas em determinados locais ou períodos, enquanto outras passavam a aparecer.
Também foram observadas mudanças na quantidade de indivíduos. Uma espécie podia continuar presente, mas tornar-se mais ou menos abundante. Segundo os autores, essas oscilações podem refletir processos internos das comunidades, como interações entre espécies, expansão e redução de populações, pulsos de recrutamento ou quedas pontuais de abundância. O estudo, porém, não mediu diretamente qual desses processos provocou cada mudança.
Embora as comunidades tenham variado ao longo dos anos, não foi identificada uma trajetória única e contínua de transformação. Em outras palavras, os dados não mostraram todas as ilhas caminhando progressivamente para um aumento ou uma redução geral da diversidade. Houve mudanças, mas sem uma direção comum ao longo de todo o período.
Menor mudança não significa menor vulnerabilidade
As ilhas menores e mais isoladas apresentaram menos espécies e comunidades temporalmente mais estáveis no período analisado. Isso não significa, porém, que estejam mais seguras diante de perturbações.
Estabilidade descreve quanto uma comunidade mudou durante determinado intervalo de tempo. Resiliência envolve outra questão: sua capacidade de se recuperar depois de uma perturbação, retornando a um estado anterior.
Os autores levantam a possibilidade de que a adaptação e os filtros ambientais característicos de ilhas isoladas contribuam para manter comunidades mais homogêneas. Essas são interpretações possíveis para o padrão observado, não mecanismos diretamente testados pelo estudo.
Ao mesmo tempo, comunidades com poucas espécies, como ilhas menores e mais isoladas, podem apresentar menor redundância funcional. Isso acontece quando existem menos espécies capazes de desempenhar funções ecológicas semelhantes.
Em um ambiente com alta redundância, a redução de uma espécie pode ser parcialmente compensada por outras que exercem funções parecidas. Quando essa redundância é baixa, a perda de uma única espécie pode ter consequências mais amplas para a cadeia alimentar e para o funcionamento do ecossistema.
O próprio artigo destaca que a relação entre redundância funcional e resiliência ainda precisa ser melhor compreendida. Mesmo assim, os autores alertam que as redes alimentares das ilhas menores podem ser particularmente suscetíveis a impactos humanos e, por isso, devem receber atenção em estratégias de conservação.
Distância do continente não é o mesmo que isolamento
A pesquisa também mostra por que não basta medir a distância entre uma ilha e o continente.
Trindade está a aproximadamente 1.150 quilômetros da costa brasileira, mas fica a cerca de 50 quilômetros do ambiente recifal raso mais próximo. A ilha integra um sistema que inclui o Arquipélago de Martin Vaz e uma cadeia de montes submarinos.
São Pedro e São Paulo está a cerca de 1.010 quilômetros do continente, uma distância ligeiramente menor. No entanto, encontra-se a aproximadamente 630 quilômetros do recife raso mais próximo.
Para organismos que dependem desses habitats durante a dispersão, os recifes e montes submarinos localizados no caminho podem funcionar como pontos intermediários de conexão, os chamados trampolins (ou stepping stones). Assim, uma ilha muito distante da costa pode estar ecologicamente conectada a outros ambientes, enquanto outra, aparentemente menos remota, permanece mais isolada.
Essa diferença ajuda a explicar por que distância do continente e isolamento em relação ao recife mais próximo produziram resultados distintos nas análises. Distância geográfica, sozinha, não representa necessariamente o grau real de conectividade de uma comunidade marinha.
O que o monitoramento de longo prazo permite enxergar
Um levantamento isolado mostra quais espécies estavam presentes em determinado momento. Uma série histórica revela quais espécies aparecem ou desaparecem, como suas abundâncias oscilam e se essas mudanças fazem parte de um padrão recorrente ou de uma transformação persistente.
Os resultados mostram que processos previstos pela Teoria da Biogeografia de Ilhas podem ser percebidos não apenas em escalas evolutivas muito longas, mas também durante períodos ecológicos relativamente curtos. As comunidades se reorganizam entre os anos por meio da substituição de espécies e das mudanças de abundância.
O estudo também possui limitações. Parte dos dados anteriores a 2012 foi obtida de maneira oportunística e descontínua. Além disso, não foram coletadas informações de caracterização ambiental.
Isso significa que a pesquisa não permite atribuir uma alteração específica à temperatura da água, à pesca, à degradação do habitat, a eventos climáticos ou a qualquer outra causa isolada. O que os dados permitem identificar são associações entre fatores geográficos e os padrões de riqueza, composição e abundância de peixes nas comunidades.
A principal contribuição do trabalho está justamente em mostrar que a biodiversidade não pode ser avaliada por um único indicador. Contar espécies é importante, mas não basta. Também é preciso observar como elas se distribuem, quais são substituídas ao longo do tempo, como suas populações variam e até que ponto cada ilha permanece conectada a outros ambientes.
As ilhas menores e mais isoladas apresentaram comunidades menos ricas e mais estáveis ao longo do período analisado. As maiores e mais conectadas reuniram mais espécies e mostraram mudanças internas mais intensas na composição e na abundância dos peixes.
Nenhum desses resultados permite classificar automaticamente um tipo de ilha como mais saudável ou mais segura contra impactos antrópicos. Eles mostram que riqueza, heterogeneidade, estabilidade e resiliência são dimensões diferentes da biodiversidade — e que compreender sua relação depende de monitoramentos contínuos, comparáveis e mantidos por muitos anos.